Um em cada quatro brasileiros convive com esgoto a céu aberto, diz ANA

September 25, 2017

Relatório da Agência Nacional de Águas mostra que 27% da população brasileira não tem acesso a tratamento e coleta de esgoto, e tampouco fossa séptica.

 

Esgoto jogado no Rio Pirarara em Cacoal, em Rondônia; na região Norte, apenas 12% da população tem seu esgoto dirigido a estações de tratamento (Foto: Rogério Aderbal/G1)


Por Monique Oliveira, G1

 

 

Um  em cada 4 brasileiros (27%) mora em residências desprovidas de coleta e tratamento de esgoto -- e que tampouco possuem fossa séptica -- informa um novo relatório da Agência Nacional de Águas, divulgado neste domingo (24). Dentre aqueles que têm o esgoto coletado, 18% não têm serviço de tratamento.

 

Além disso, apenas 14% das cidades brasileiras retiram pelo menos 60% de matéria orgânica da água, o mínimo exigido por resolução do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente).

Os atlas de esgotos e despoluição de bacias hidrográficas, da ANA, analisaram 5570 municípios brasileiros quanto ao esgotamento sanitário e a disponibilidade de recursos hídricos. Não foram consideradas áreas rurais.

 

O relatório aponta que apenas 39% da carga orgânica gerada diariamente no país é removida com a infraestrutura de tratamento de esgotos. A carga orgânica é considerada poluidora e inclui, dentre outros poluentes, fezes e urina.

 

 

 

 

 

Resultado: cerca de 5,5 mil toneladas de carga orgânica por dia chegam aos recursos hídricos. O índice de carga orgânica é calculado por meio da ‘Demanda Bioquímica de Oxigênio’, a quantidade de oxigênio necessária para dissolver a matéria orgânica existente na água.

 

“Trata-se de um número alto e significativo ”, diz Sérgio Ayrimoraes, superintendente de Planejamento de Recursos Hídricos da ANA (Agência Nacional de Águas).

 

Se estivéssemos numa escola, é como se o Brasil tivesse tirado 3,9 em esgotamento sanitário”, diz.

 

Para a agência, há um déficit de atendimento de serviços de esgotamento sanitário no Brasil e a sucessão de eventos críticos nos últimos anos -- como, por exemplo, a falta de água em São Paulo -- evidencia a importância da necessidade de investimentos em infraestrutura no setor.

O acesso à água potável e saneamento básico também é um direito essencial do ser humano, de acordo com a Organização das Nações Unidas: “o direito a uma água potável, limpa e de qualidade e a instalações sanitárias é um direito humano, indispensável para gozar plenamente do direito à vida”, aponta a entidade.

 

Problemas em concentrações urbanas

 

A maioria das grandes cidades brasileiras tem problemas com a geração de esgotos. E, por isso, esses grandes conglomerados populacionais demandam mais infraestrutura para gerir a quantidade de esgoto gerada, considera a agência.

 

A ANA calculou que, nas cidades, são geradas uma média de 54 g de carga orgânica poluidora por dia nas grandes cidades.

 

As 100 cidades mais populosas do País são responsáveis por aproximadamente 2,2 mil toneladas de carga orgânica por dia (40% do total); ainda, metade dessa carga provem de 15 cidades com populações urbanas superiores a 1 milhão de habitantes.

 

Ambientalista constata presença de esgoto in natura no Ribeirão do Quilombo, em Americana (SP) (Foto: Reprodução/EPTV)

 

É um número bem alto, considera a ANA. Se compararmos com os municípios menos populosos (5 mil com população inferior a 50 mil habitantes), eles são responsáveis por 1,9 mil toneladas.

 

Há também problemas com a administração do esgoto em algumas áreas urbanas. Cerca de 2589 municípios não contam com um prestador responsável pelo esgoto na região -- ou seja, não há uma instituição que esteja olhando para essa questão.

Com isso, uma consequência de não haver um responsável é o fato de que 95% desses municípios não contam com serviços de tratamento de esgoto.

 

Sudeste tem melhor cobertura; região Norte é a mais carente

 

A região Sudeste é a única onde o tratamento dos esgotos gerados alcança mais da metade de sua população urbana (54%). Já a região Norte é a mais carente, com apenas 12% da população tendo seu esgoto dirigido a estações de tratamento.

 

Em relação à região Sul, o índice de cobertura é de 40%; a Centro-Oeste, 49%; e Nordeste, 32%.

 

Embora os índices de cobertura de coleta sejam maiores, eles ainda refletem as mesmas desigualdades regionais: Sudeste (83%); Sul (54%); Centro-Oeste (51%); Nordeste (43%); e Norte (16%).

 

O que o esgoto faz com a água

 

O lançamento do esgoto na água sem qualquer tratamento compromete a qualidade dos recursos hídricos -- o que traz consequências negativas para a saúde da população e, no limite, inviabiliza o abastecimento, diz a Agência Nacional de Águas.

 

Isso é particularmente importante em grandes cidades em que os rios ou têm pouca capacidade de diluição desse esgoto, ou essa capacidade é insuficiente para a quantidade de pessoas que moram nessas regiões, explica Sérgio Ayrimoraes, da ANA.

Para analisar como o esgoto está impactando as águas brasileiras, a ANA também avaliou a parcela de carga orgânica removida em cada esgoto. A região Norte remove 21%; Nordeste, 27%; Sudeste, 45%; Sul 46%; e Centro-Oeste 48%.

 

Os recursos para superar o problema

 

Para universalizar os serviços de esgotamento sanitário no país, o Brasil precisaria investir R$ 149,5 bilhões até 2035, informa a ANA.

 

Segundo a agência, a coleta de esgotos representa o investimento inicial mais elevado (R$ 102,1 bi) – já que 3.301 municípios possuem menos de 50% da população com coleta de esgotos. Para o tratamento de esgotos seriam necessários R$ 47,6 bilhões, segundo o relatório.

 

A região Nordeste é a que mais demanda investimentos, com os estados de Pernambuco, Bahia e Ceará, juntos, representando 56% da demanda necessária para a região. São necessários R$ 49.746 milhões. Ainda, 70% dos investimentos foram previstos na coleta de esgoto.

 

Em segundo lugar em demanda por investimentos, está o Sudeste com R$ 43.482 milhões. Depois, em terceiro, está a região Sul com a necessidade de R$ 23.183 milhões. Em seguida, a região Norte (R$ 19.138 milhões); e, por último, a região Centro-Oeste (R$ 13.947 milhões).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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